sábado, 7 de agosto de 2010


Soneto de Amor



Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,
e desde então sou porque tu é,
e desde então é, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.


Pablo Neruda

Eu queria trazer-te uns versos
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Sua palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para os ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao
vento da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!

Mario Quintana
SE TU ME ESQUECES


Quero que saibas uma coisa.
Tu já sabes o que é:
Se olho a lua de cristal,
o ramo rubro do lento outono
em minha janela,
se toco junto ao fogo
a implacável cinza ou
o enrugado corpo da madeira,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz , metais,
fossem pequenos barcos
que navegam para estas tuas ilhas
que me aguardam.

Pois, ora, se pouco a pouco
deixas de me amar, de te amar, pouco a pouco, deixarei.
Se de repente me esqueces, não me procures,
já te esqueci também.
Se consideras longe e louco
o vento de bandeiras que canta minha vida
e te decides a me deixar na margem do coração
no qual tenho raízes, pensa que nesse dia
a essa hora levantarei os braços
me nascerão raízes procurando outra terra.
Porém, se cada dia,
cada hora, sentes que a mim estás destinada com doçura implacável,
se cada dia se ergue uma flor
a teus lábios me buscando,
ai, amor meu, ai minha,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga
nem se esquece, do teu amor, amada,
o meu se nutre,
e enquanto vivas estará em teus braços
e sem sair
Soneto do Amor Como um Rio
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo...

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Mario Quintana

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.

domingo, 4 de julho de 2010

Eu não sonho mais

Eu não fumo mais
Eu não tenho mais as mesmas histórias
Sou suja sem você
Eu sou feia sem você
Como uma órfã em um dormitório

Não tenho mais vontade de viver minha vida
Minha vida parou quando tu te foste
Eu não tenho mais vida e até minha cama
se transforma num cais
Quando tu partes

Estou doente
Completamente doente
Como quando minha mãe saía à noite
E me deixava sozinha com meu desepero

Estou doente
Perfeitamente doente
Tu chegas, nunca se sabe quando
Tu partes, não se sabe nunca para onde
E vai fazer logo dois anos
que não dás a mínima!

Como a um rochedo
Como a um vício
Eu estou agarrada a ti
Estou cansada,
Exausta
De aparentar felicidade
Quando eles estão lá

Bebo todas as noites,
Todos os Whiskies
Pra mim tem o mesmo gosto...
E todos os navios levam tua bandeira
Não sei mais onde pra onde ir
Estás em todos os lugares

Estou doente
Completamente doente
Eu verto meu sangue em teu corpo
E eu sou como um pássaro morto
Quando tu dormes
Estou doente
Perfeitamente doente
Tu me privastes de todas as minhas canções
Tu me esvaziastes de minhas palavras
Portanto, vejo que eu tinha talento frente à tua pele

Esse amor me mata
Se continuar assim
Vou morrer sozinha... comigo
Perto do meu rádio
Como uma criança idiota
Escutando minha própria voz
que vai cantar...

Estou doente
É isso! estou doente!
Tu me privastes de todas as minhas canções
Tu me esvaziastes de minhas palavras
E eu tenho o coração completamente doente
Cercado de barricadas
Você escutas? Estou doente...

Caruso

Aqui onde o mar brilha

e sopra forte o vento
sobre um velho terraço
em frente ao Golfo de Sorrento
um homem abraça uma mulher
depois de haver chorado
depois limpa a voz
e recomeça o canto

Eu te amo tanto
mas tanto, tanto, tanto, sabe?
é uma "corrente"
que faz o sangue queimar nas veias, sabe?


viu luzes em alto-mar
lembrou de noites lá na América
mas eram só lanternas a brilhar
no rastro branco de uma hélice
sentiu doer a música
se levantou do piano
mas vendo a lua surgir
atrás de uma nuvem
até a morte lhe pareceu mais doce
olhou fundo nos olhos da mulher
aqueles olhos verdes como o mar
de repente viu escapar uma lágrima
e pensou esta a se afogar

Que poder é esse da ópera
onde todo drama é falso
onde com um pouco de maquiagem e representação
podemos nos transformar em outro
mas quando dois olhos te olham assim
tão perto e verdadeiros
te fazem esquecer as palavras
confundem teus pensamentos
então fica tudo tão pequeno
até as noites lá na América
você se vira e vê toda a sua vida
no rastro branco de uma hélice
mas é isso, é a vida que termina
mas ele nem se preocupou
ao contrário, já se sentia tão feliz
que recomeçou seu canto